Olhar Social: Ações solidárias combatem fome na pandemia

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Sem trabalho, Bruna teve que mudar para a casa da sogra | Foto: Olga Leiria | Ag. A TARDE - Foto: Olga Leiria | Ag. A TARDE
Sem trabalho, Bruna teve que mudar para a casa da sogra | Foto: Olga Leiria | Ag. A TARDE

A fome atingiu 19 milhões de brasileiros na pandemia em 2020. São 116,8 milhões de pessoas com algum grau de insegurança alimentar no país, o que corresponde a 55,2% dos domicílios. No Nordeste, os moradores de 25% dos domicílios sobrevivem com rendimentos mensais iguais ou abaixo de 24% do salário mínimo per capita, o que configura risco grave para a fome. Os dados são do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, divulgado na semana passada e conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). Para tentar amenizar o cenário, projetos sociais fazem campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos na Bahia.

Com a pandemia e a consequente necessidade de ficar em casa, a jovem Bruna Alexandrino, 24, ficou impossibilitada de realizar os serviços domésticos que garantiam a renda da casa onde morava. Hoje, ela vive na casa da sogra com o marido, o autônomo Jocsã Sales, 26, e os três filhos pequenos,  Dandhara, de oito meses, Hugo, de 2 anos, e  Enzo, de 5 anos. Com a renda mensal da casa em um salário mínimo, Bruna depende da doação de cestas básicas para não deixar faltar comida na mesa.

“É um momento muito difícil. A gente fica com medo e a apreensão de faltar comida, principalmente para os pequenos. Os alimentos que recebo das doações são essenciais. Tem hora que falta também materiais de limpeza, higiene. Itens que preocupam em momento de pandemia e necessidade de maior cuidado”, conta Bruna.

Rede solidária

Moradora de Paripe, Bruna recebe uma cesta básica mensal do projeto Doe Solidariedade Salvador, organizado pela Federação das Associações de Bairros de Salvador (Fabs) e entidades parceiras, como a Associação 8 de Dezembro. A diretora de comunicação da Fabs, Aline Lima, explica que atualmente o projeto ajuda 10 famílias de Paripe, mas tem amplitude de assistência para 300 famílias em outros bairros da capital. Segundo Aline, após pouco mais de um ano de pandemia, o projeto enfrenta queda de arrecadação e precisa de doações para manter e ampliar a rede de solidariedade.

“A campanha já tem cerca de um ano, mas passa pelo seu momento mais delicado. Com o avanço da pandemia, algumas pessoas ficaram sem condição de continuar doando. Então toda ajuda é válida”, explica Aline. Representante da Associação 8 de Dezembro, Maria das Graças cita outro cenário preocupante: “Com a perda de emprego e renda, consequência da pandemia, existem pessoas que doaram e hoje precisam de ajuda para não passar fome”.”

Existem pessoas que doaram e hoje precisam de ajuda para não passar fomeMaria das Graças – Associação 8 de Dezembro

Joneide Roquelina, 51, moradora de Paripe, é uma dessas pessoas. “Sempre quando pode, a gente tenta ajudar um ao outro, pois muitas famílias estão enfrentando a fome. No entanto, como estou desempregada e cuido da minha mãe em casa, a Joselita, de 78, já está faltando o que colocar no prato. E as doações ajudam muito”. Ana Maria dos Santos, 60, moradora do bairro há 30 anos, vive o mesmo problema da insegurança alimentar. “Na medida do possível, a gente pede forças a Deus para seguir lutando. Entre filhos e netos, moro numa casa com cinco pessoas, cuja única renda é o que consigo do Bolsa Família”, desabafa Ana.

Para a vice-coordenadora da Rede Penssan, a nutricionista Sandra Bastos, a baixa renda é fator determinante para a insegurança alimentar. “Quando a gente fala que o Nordeste tem 25% de domicílios com rendimento mensal igual ou abaixo de 24% do salário mínimo per capita, estamos diante de um cenário preocupante. Precisamos de políticas públicas que garantam o direito básico da alimentação. E não estou falando apenas de ações como os restaurantes populares, mas o trabalho conjunto de distribuição de cestas básicas, proteção de pequenos e médios negócios, que geram empregos locais”, explica Sandra.

PODERES PÚBLICOS INVESTEM 

Desde de março de 2020, com o início da pandemia, tanto na capital quanto no interior, a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS) afirma que o orçamento foi direcionado às ações de enfrentamento à fome e à vulnerabilidade social. Segundo o órgão, no primeiro trimestre de 2021, os restaurantes populares mantidos pelo Governo da Bahia em Salvador já serviram 311.535 mil refeições. Nos restaurantes populares, a pessoa paga o valor simbólico de R$ 1,00 pela refeição. As crianças menores de 5 anos são atendidas gratuitamente.

Ainda segundo a Secretaria, nos três primeiros meses do ano, o Programa de Aquisição de Alimentos realizou a compra e doação de pouco mais de 1 milhão de quilos de alimentos e 784 mil litros de leite para os baianos, um investimento de mais de R$ 5,4 milhões. Mais de 55 mil famílias baianas foram beneficiadas em 2021. O programa de distribuição de alimentos está presente em 263 municípios baianos, enquanto a entrega de leite ocorre em 89 cidades do estado. 

“A pandemia trouxe inúmeros desafios para a garantia de direitos das pessoas em situações de vulnerabilidade socioeconômica. E nossas ações estão voltadas para a garantia de direitos básicos como a alimentação. O problema da fome na Bahia é grave. Quase 40% da nossa população vive no semiárido. 13% dos baianos estão entre a situação de pobreza e extrema pobreza. Por isso, vamos manter e fortalecer as ações sociais”, explica Carlos Martins, titular da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social.”

13% dos baianos estão entre a situação de pobreza e extrema pobrezaCarlos Martins, titular da SJDHDS

Com o agravamento da pandemia do coronavírus na capital baiana, uma nota da Prefeitura afirma que são distribuídas 700 refeições diárias nos restaurantes populares de Salvador, localizados em Pau da Lima e São Tomé de Paripe, de segunda a sexta-feira, das 11h30 às 13h30. Ainda segundo a Prefeitura, desde o começo da pandemia, mais de 687.257 refeições foram distribuídas para a população.

COMO AJUDAR

Doe Solidariedade Salvador – Fabs

Banco: Bradesco

Agência: 3571

Conta: 0099697-1

Ponto de arrecadação: Sede da Associação 8 de Dezembro, Rua 08 de Dezembro, s/n, Paripe / Sede da Organização Ambiental e Cultural de Cajazeiras (Cajaverde), Rua Engenheiro Eunápio Peltier de Queirós, via Local J, número 3, Cajazeiras.

Contatos: (71) 99290-7992 – Aline Lima / (71) 98736-0887 – Kilson Melo

Doe Alimentos – Rede Amigas de Dulce

Banco: Banco do Brasil

Agência: 3429-0

Conta: 158.661-0

Pix: bb158661@irmadulce.org.br

CNPJ: 15.178.551/0001-17

Ponto de arrecadação: Avenida Dendezeiro do Bonfim, 161, Roma – Portão 01 – das 8h às 16h

Doação – Centro de Salvador

Contato para doações: (71) 98532-5663 – Ivonete Bispo

Local de adoção: Doações de alimentos e materiais de higiene e limpeza podem ser agendados e doados no centro de yoga e psicologia Atman, na Travessa dos Barris, número 33, nos Barris

Panela Cheia – Cufa

Site para a doação: www.panelacheiasalva.com.br. Através do site, a pessoa pode escolher a iniciativa e instituição que deseja ajudar.

Pix: panelacheia@cufa.org.ba (Cufa) / CNPJ 18.463.148/0001-28 (Gerando Falcões) / CNPJ 36.242.239/0001-15 (Frente Nacional Antirracista)

Informações: panelacheiasalva@gmail.com

CAMPANHA BUSCA 2 MILHÕES DE CESTAS

Com o avanço da pandemia do novo coronavírus, cerca de sete em cada dez pessoas (68%) que vivem em comunidades periféricas do país tiveram piora em sua situação alimentar em 2021. Os dados são de pesquisa do Data Favela, feita em parceria com a Central Única das Favelas (Cufa) e o Instituto Locomotiva. Para tentar mitigar a situação, a Cufa, em parceria com organizações como a Gerando Falcões e a Frente Nacional Antifascista, está com a campanha Panela Cheia, que visa garantir a compra de dois milhões de cestas básicas, que serão distribuídas em todo o país. Nas periferias de Salvador, até o momento, cerca de 100 cestas básicas foram doadas pela ação.

“Aqui na Bahia, em Salvador, tem gente que não conhece a verdadeira favela, aqueles locais onde a população está completamente vulnerável, onde o medo de faltar comida bate na porta de 15 em 15 dias. Por isso, estamos com a meta de arrecadar o máximo de cestas básicas, pois só quem vivencia sabe a dor de mães e pais de família que estão encarando a fome na pandemia. Vale destacar que nossas ações e pesquisas contribuem para o fomento de políticas públicas que sejam pensadas para essas áreas”, afirma o presidente da Cufa na Bahia,  Márcio Lima. 

Ações de auxílio

Há pouco mais de um ano, a presidente do Conselho de Moradores do Centro da Cidade de Salvador, Ivonete Bispo, participa do trabalho de distribuição de cestas básicas no Barbalho e demais bairros da região. Por mês, cerca de 100 cestas básicas são distribuídas por meio de uma ação do conselho com o centro de yoga e psicologia Atman, localizado no bairro dos Barris.

“No dia 20 de cada mês, a gente faz a distribuição das cestas básicas. No entanto, com a queda do número de doadores, a gente precisa de ajuda para continuar dando assistência para famílias que precisam de alimentos, materiais de higiene e limpeza. A gente também faz a distribuição de máscaras e álcool em gel. Nesse momento de pandemia, toda ajuda é importante”, diz Ivonete.

Para ajudar pessoas em situação de rua e famílias carentes da cidade, a Rede de Amigas de Dulce está com a campanha Doe Alimentos. “A gente continua com a entrega de sopa para moradores de rua, a entrega de 100 quentinhas diárias para os que mais precisam. A distribuição de máscaras, álcool em gel, materiais de limpeza. Contamos com as doações para manter o legado de amor da Santa Dulce dos Pobres”, diz  a coordenadora de marketing das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), Mariana Pimentel. 

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