Por que idolatramos políticos?

Por que idolatramos políticos?

Há quem critique o conceito de “brasileiro cordial”, do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), porque o brasileiro seria agressivo, mal-educado, mas isso é um equívoco. “Cordial” vem do latim “cor, cordis”, que significa “coração”. Ou seja, o brasileiro é um ser passional —logo, dado a fazer bobagens.

Não consegue separar o privado (emoção) do público (razão), acha que o Estado é uma ampliação do círculo familiar, ou seja, acha que o espaço público é a casa da mãe joana (nepotismo, patrimonialismo, personalismo etc.). Como esclarece o sociólogo, “a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado (…) o indivíduo afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas”.

Um exemplo é a idolatria à pessoa de Jair Bolsonaro a partir do “ele é gente como a gente!”, só porque veste camiseta de time de futebol, come pizza em pé na calçada ou tira foto usando chinelos, sentado em uma cadeira de plástico em um boteco nas férias de fim de ano.

No outro lado, temos o “Lulinha paz e amor”, “Lula ladrão, roubou meu coração” e uma adoração messiânica ao ex-presidente Lula. Segundo a militância, Lula é o único capaz de salvar a população brasileira, e quem se recusa a votar nele é um herege. Puro sebastianismo: a crença de que dom Sebastião (1554-1578) voltaria como um novo messias para levar Portugal à glória novamente.

Nas últimas eleições, ouvimos que Henrique Meirelles não é simpático, que Marina Silva é frágil. Boulos bradava “vamos voltar a fazer política com emoção”. Não! Foi por causa da emoção que atolamos nessa lama polarizada. Um jornalista disse que já é hora de perdoar o PT. Perdoar um partido que causou estrago devastador na economia e se envolveu em corrupção? Perdoamos pessoas pelas quais nutrimos algum tipo de sentimento e apenas quando assumem responsabilidade pelos erros cometidos.

Políticos e partidos são como eletrodomésticos. Uma geladeira serve apenas para resfriar alimentos. Um político é um funcionário público que deve ser eficiente e só, como uma geladeira: parou de gelar? Conserte ou compre outra. Ninguém ama uma geladeira, idolatra uma geladeira.
Não somos máquinas, claro, mas sermos humanos não significa estarmos em constante estado de torpor emocional. Entre o brasileiro apaixonado e um computador há gradações e há situações em que cada habilidade humana (razão e paixão) é mais adequada. Idolatremos humoristas, músicos, santos. Tratemos políticos pelo que de fato são: parafusos de uma engrenagem que deve manter um país funcionando de forma eficiente.

Fonte: UOL

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