Ações associam Libras às expressões artísticas

Rosana Silva | Agência Mural

Por volta dos 10 anos de idade, o auxiliar administrativo, professor e consultor de Libras Elinilson Soares, 39 anos, que é surdo, conta que teve o seu primeiro contato com a música ao ver o Olodum, no Pelourinho. “Visualizava os instrumentos percussivos sendo tocados, sentia a vibração e aquilo me emocionava muito”, relata.

Aquela sensação se transformou em motivação profissional e Soares passou a se dedicar para que outros surdos tivessem essa emoção. Neste Setembro Azul, mês da visibilidade da Comunidade Surda Brasileira, e em especial o dia 26 de setembro, Dia Nacional dos Surdos, o consultor destaca a importância de ampliar os espaços para a comunidade.

“Precisamos de surdos ocupando os diversos cargos nas empresas, necessitamos de surdos empreendedores, artistas, na área da saúde e em todos os lugares, para que a gente consiga ter uma sociedade mais justa. Temos surdos nas faculdades, no trabalho, envolvidos na política”.

Teatro e música

Assim como Soares, a moradora do bairro do Resgate, a psicóloga, professora, tradutora e intérprete de Libras Ana Paula Melo, 49 anos, trabalha teatro e música com surdos em uma igreja. “Ao contrário do que muitos pensam, os surdos têm ritmo. Eles sentem a vibração. Uma estratégia é ter o tablado [do teatro] todo de madeira. Colocamos o som e eles percebem o ritmo pela vibração e dançam”, diz.

Ana Paula trabalha há quatro anos com o grupo de teatro amador conecTarte. “As peças são criadas pelos surdos. Há peças para o Dia da Criança, Dia Nacional do Surdo, ou outro tema que eles achem interessante”.

O gosto pela música fez a intérprete, tradutora, consultora em acessibilidade e CEO do Libras Mais, Eurides Nascimento, 40 anos, levasse canções para as primeiras aulas na escola. “Eu sempre fazia [interpretação] e os alunos curtiam bastante”.

Além disso, Eurides realizava saraus de poesias para pessoas surdas e, com o projeto ‘Bailando com as mãos’, levava música para as escolas. “Me vestia como uma boneca surda e fazia musiquinhas para os meninos, que saíam repetindo os sinais”, relembra as ações.

Entre 2016 e 2017, a moradora do bairro do Bom Juá começou a traduzir e interpretar músicas de artistas locais. “Quando eu comecei a fazer [tradução], tinham poucas pessoas em Salvador”, recorda.

Com a pandemia, ela disse observar o aumento da visibilidade para o uso de Libras na área artística. “Percebi que não estava só. Eu já faço escola. Muitos intérpretes, com esse recorte de mulheres negras, estão vindo e, às vezes, pela primeira vez fazendo a tradução”, diz.

No Setembro Surdo, como também é conhecido o Setembro Azul, Eurides está realizando encontros virtuais para tratar da saúde mental das pessoas surdas. As inscrições podem ser feitas pelo Instagram do Libras Mais (@libramaisoficial).

Crescimento

Elinilson Soares também disse ter percebido mudanças significativas do uso das Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) durante a pandemia, com o crescimento da acessibilidade em plataformas digitais, como o YouTube. “Houve aumento de eventos de diversas áreas e linguagens, principalmente de conteúdos artísticos com intérpretes de Libras, o que foi despertando mais interesses de pessoas surdas”.

Ana Paula, que trabalhou em eventos online de música e poesias, conta que o material é entregue anteriormente. “A gente já pode fazer uma pesquisa, um preparo e apresentar algo bem bacana para os surdos. “Interpretação de música é uma das coisas mais difíceis. É muito novo para a gente, o processo de tradução artística aqui. O gênero musical não é o problema, mas a articulação da fala, porque precisamos compreender o que está sendo dito e a velocidade das palavras”.

Segundo Eurides, na tradução de uma música, a primeira ação é ter empatia. “A primeira técnica é se colocar no lugar do surdo, em um processo de conhecimento linguístico, como também do conhecimento cultural. Então, a gente acaba fazendo a transposição de uma língua para outra”, conta.

Complexidade

Como toda a língua, a Libras é uma língua visual-espacial articulada através das mãos, das expressões faciais e do corpo. E possui uma gramática própria. Além disso, existe a dimensão cultural que tem a ver com o modo que cada indivíduo enxerga o mundo. “Não tem como ser intérprete, ouvinte e descortinar essas questões dos surdos sozinha. Eu preciso estar com eles. Eles vão me falar como entendem, sentem a música”, acrescenta Ana Paula.

Elinilson Soares destaca que a presença da pessoa surda no processo da tradução aumenta as possibilidades de leitura da obra artística, além de tornar visível a cidadania dessas pessoas. “É muito importante ter a presença de um profissional surdo no processo de interpretação, por conta do reconhecimento, de suas competências e habilidades para atuar nos diversos espaços da sociedade”.

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